25.5.13

Cao Guimarães entre videos, poesia e gambiarras

Da série "Gambiarras"
A poética visual do artista encanta. Para ver as mais de 20 obras da mostra “Ver é uma fábula”, de Cao Guimarães, vá com folga para uma apreciação completa. São 21 obras em exposição, sendo 20 videos, com curadoria de Moacir dos Anjos, projeto expográfico de Marta Bogéa, e desenho sonoro de O Grivo. A mostra ocupa espaços de três andares do Itaú Cultural, em São Paulo, inclusive os de passagem. 

Em uma das escadas, por exemplo, grata surpresa. Ela bem nos serve para sentar para ver as fotos da série "Gambiarras" (2001-2012), projetadas no alto da parede. 

Poesia e o humor nas engenhocas construídas para diversos propósito. Ao utilizar a escadaria do quarto para o terceiro andar para esta experiência visual, a montagem remonta a característica de Cao, em dar novos sentidos às coisas. O improviso, no espaço, o ressignifica em sua função e torna a própria exposição, uma gambiarra. 

"Brasília"
Mas para quem opta em começar pelo ultimo andar, esta meia hora de projeção fotográfica é só o começo. Nas salas tradicionais, mais novidades. Em cada uma, três grandes telas estão penduradas, dispostas em formato triangular, onde são projetados, alternadamente, uma série de filmes. 

As imagens te transcendem e penetram na tua imaginação. Bancos redondos de ampla circunferência são disponibilizados. São vinte vídeos feitos em parceria com Rivane Neuenschwander. Você deita, senta e viaja nas imagens de Cao, ouvindo os desenhos sonoros criados por Nelson Soares e Marcos Moreira, que formam o duo sensacional de O Grivo.

A bolha inquilina...
Um deles é “O Inquilino” que em 10 minutos e meio descreve a trajetória de uma bolha de sabão. Em suspensão contínua, sem nunca estourar a bolha flutua por salas, chegando a cantos vazios e paredes destruídas. 

A trilha realça a tensão emocional, psicológica, revelando os sons de uma casa vazia, a leve presença humana e sintetizadores. Todos os vídeos, que variam de 1 a 15 minutos mais ou menos merecem ser vistos integralmente, daí a necessidade de se ter tempo para visitar a exposição. 

As formiguinhas em sua quarta-feira de cinzas
"Quarta-feira de cinzas" também é de uma poesia atroz. Formigas carregam pedaços de papel colorido, fazendo alusão aos confetes, que são usados no Brasil na época do carnaval. 

Há ainda Peiote, feito no México, onde uma criança brinca de luta livre ao estilo do super heróis japoneses, em meio a uma dança oferecida aos índios ancestrais mexicanos.

Outro projeto de Cao que reforça seu lugar de um dos mais incríveis artistas visuais brasileiro é “Histórias do Não ver”, livro que reúne imagens que ele fez às cegas ao viajar por várias cidades do mundo. 

"Histórias do não ver"
Ele pediu a amigos que, nestes lugares, o sequestrassem e o levassem, vendado, a algum espaço que ele fotografou imaginando suas essências apenas ouvindo os sons e ruídos existentes em cada um. Além do livro, que traz texto do artista sobre esta experiência, o projeto também conta o vídeo instalação que está nesta mostra do Itaú. 

A mostra que abriu em março e encerra em 1º de junho, exibiu ainda 8 longas e realizou um workshop com o próprio Cao Guimarães, que falou da carreira e da relação do cinema e das artes plásticas em seu trabalho. O Grivo também participou falando das criações para a obra do artista. 

Em Algodoal...
Belém e Algodoal – Também está na exposição, o vídeo “Da Janela do meu quarto”, feito por Cao, em 2004, época em que o artista esteve também em Belém, participando do “Fluxo de Arte Belém Contemporâneo”. 

O evento, produzido, pelos artistas plásticos Camila Sposati e Tonico Lemos Auad, teve como objetivo instalar um fluxo de intercâmbio de artes, tendo como sede o Museu de Arte de Belém (MABE). Participaram artistas paraenses e londrinos, que ficaram residentes em um casarão, funcionando onde hoje está instalado a Fotativa, na Praça das Mercês.

Dessas trocas e experimentações, surgiu uma exposição, que foi montada no Mabe e onde também foi realizada a programação. O evento contou três debates, tendo artistas convidados, entre eles Cao Guimarães, que integrou a mesa: “A fotografia: entre documentos da realidade e suporte ficcional e/ou poético”, junto a Luiz Braga, Ben Judd e Rodrigo Moura. 

Cao, pela primeira vez em Belém, se disse curioso em conhecer lugares onde pudesse trabalhar um pouco. Foi assim que, além de participar da programação da mostra, ele viajou a ilha de Maiandeua e fez, por um acaso, o que ele sempre aproveita muito em seus vídeos, “Da Janela do Meu Quarto”. Em pouco mais de cinco minutos, o vídeo mostra um menino e uma menina se divertindo com movimentos de uma luta sob grossos pingos de chuva, na vila de Algodoal.

Montagem incentiva a viagem pela poética de Cao...
Um sopro - "Ver é uma Fábula" mostra toda a poética e a originalidade de Cao Guimarães, reafirmando sua sensibilidade e inquietação. 

Quem tiver oportunidade de visitar, o faça. É uma bela viagem, feita de luz, cores, movimentos e sons, nos levando a inúmeras reflexões. 

É "um sopro poético na alma", como citou o artista Milton Aires, que também esteve na exposição. Em cada vídeo você constrói a própria fábula. É uma das especialidades de Cao, nos deixar reformular as narrativas inacabadas de suas histórias. 

Saiba mais sobre a exposição, no site do Itaú Cultural.

Café com Verso e Prosa está de volta à cena

Após 10 anos parado, o projeto receberá, nesta terça-feira, 28, os escritores Alfredo Garcia-Bragança e H.G. O sarau literário, além do bate papo, recebe intervenções cênicas de obra dos escritores convidados, estimulando a prática da leitura e formando leitores. Ao final do evento, é servido um coffe break aos participantes que, então, literalmente tomam um café com o escritor. 

O evento é promovido pela Biblioteca da Escola Zulima Vergolino Dias, localizada na Cidade Nova, vinculada ao SIEBE (Sistema Estadual de Bibliotecas Escolares), com o patrocínio dos próprios professores da escola. Segundo o Prof. Helder Bentes, coordenador do projeto, a literatura é um tipo de texto artístico construído sobre a matéria-prima da linguagem. 

“Como arte, a literatura requer um tipo específico de atenção. Hoje, com o crescimento dos recursos de comunicação digital, há uma tendência, principalmente entre o público jovem, de preferir o filme ao livro ou se contentar com o resumo de leituras que jamais deveriam ser classificadas como obrigatórias”, explica o professor. 

O objetivo do projeto é, portanto, combater essa tendência, valorizando o livro impresso como suporte de um tipo de conhecimento que pode e deve funcionar como reflexão crítica sobre a realidade. Para isso, todo mês o professor forma e coordena uma equipe de debatedores voluntários, garimpados entre estudantes, sobre a obra de um escritor convidado.

Os estudantes recebem aulas de teoria literária e técnicas de entrevista, leem a obra do autor convidado e têm a incumbência de compartilhar as novidades que vão aprendendo. 

Há um bate-papo prévio com o escritor, ainda na fase de preparação do evento mensal, para que os estudantes o conheçam pessoalmente e sintam-se à vontade para tomar um café com ele e o público. São formadas equipes de recepção, divulgação, audiovisual, coffe break, decoração temática, teatro, tudo para garantir que o público tenha uma experiência estética e saia do sarau realmente incentivado a consumir literatura. Os escritores convidados são escolhidos mediante sugestão de pauta enviada à coordenação do projeto. 

Os autores deste mês são pai e filho. Alfredo Garcia é paraense de Bragança, neto e pai de escritor. Iniciou sua carreira no gênero da literatura infanto-juvenil e depois foi se aventurando por outros gêneros, identificando-se principalmente com o conto. Com 27 anos de atividade escrita, Alfredo é jornalista, especialista em Teoria Literária e Mestre em Estudos Literários. 

Essa formação acadêmica para a escrita, certamente influenciou positivamente a qualidade de sua obra, o que justifica a fortuna crítica assinada por nomes de peso na área da literatura no Brasil, como Acyr Castro, Ignácio de Loyola Brandão, Ildefonso Guimarães, Joel Cardoso e Helder Bentes, que foi o primeiro crítico brasileiro a escrever sobre a obra Três Extremos, conto de H. G. 

Neto, filho de Alfredo Garcia, publicou na coletânea Epifanias (2009), que reúne contos dos dois autores. 

No artigo “As epifanias de um jovem escritor”, o crítico afirma: “A narrativa vale pelo devir de uma surpresa que testa as expectativas do leitor. O caminho traçado por H. G. Neto daria muito trabalho ao pesquisador que se lançasse à aventura de desvendar os passos da imaginação de um leitor, na tentativa de preencher concretamente as lacunas deixadas ao longo do texto”.

Serviço
Café com Verso e Prosa. Convidados: Alfredo Garcia-Bragança e H. G. Neto Data: 28 de maio de 2013 (terça-feira) Hora: de 18h00 às 19h30 Local: Auditório da Escola Zulima Vergolino Dias (Cidade Nova, em frente à Praça da Bíblia).

(com informações da assessoria de imprensa)

Análise sobre a série "Livrai-nos de todo o mal"

O trabalho de Wagner Almeida foi vencedor do IV Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. Instigante  e de forte sensibilidade, o repórter fotográfico levou a premiação na categoria que dá tema a edição deste ano: "Homem Cultura Natureza".

A série pode ser vista até este domingo, 26, na Casa das Onze Janelas, junto a obras de mais 21 artistas visuais brasileiros, que este ano integram a exposição principal do prêmio. 

"Livrai-nos de todo o mal", que mereceu ótimos comentários do júri, formado por Luiz Braga, Armando Queiroz e Maria Helena Bernardes, agora recebe uma análise crítica da socióloga Marly Silva. Ela faz uma leitura sobre o que está por trás das imagens captadas por Wagner, atuante na área do jornalismo policial. 

A arte da reaparição nas fotografias de Wagner Almeida

Por Marly Silva*

Por que se grita tanto no Rock? Essa pergunta ocorreu ao jovem filósofo Charles Feitosa que, fascinado pelo grito na arte, perpetrado desde o célebre quadro de Eduard Munch (1893), procurou nos dar uma resposta. Dá-la ao público, pois o filósofo ligado no mundo sabe que o que lhe ocorre, muitas vezes está em milhares de outras cabeças, no caso: amantes, desafetos ou apenas curiosos do Rock, mas só os filósofos têm tempo, paciência e ferramentas conceituais para aventurar-se nessa procura do aparentemente prosaico, sem valor. Singela é a sua resposta. 

O grito aparece na arte porque é expressão da condição humana, ou melhor, é um meio de expressar variadas emoções: prazer, felicidade, revolta, dor, horror, “sensação de impotência, quando não se acredita em mais nada, ou pior, só se acredita no nada”. 

Agora, como o grito, tido pelos antigos como “coisa feia”, rompeu esta barreira (estética) e entrou para o campo artístico, é uma outra história. Mas na arte musical, não só os roqueiros gritam! Elis Regina também gritava escancaradamente nos Festivais da Canção dos anos 1960, expressando um misto de rebeldia, provocação e êxtase. 

Num show da banda Iron Maiden, no qual o vocalista incitava a plateia do Rock in Rio com o refrão: Scream for me, Brazil! (grite por mim, Brasil), nosso filósofo e mais dezenas de milhares de outras pessoas gritavam juntos “meio sem saber por que, mas felizes em se esgoelar até perder o fôlego”. Coisa de jovem, ora bolas! 

Situação oposta é aquela que encontramos na série de fotos em exposição do jovem repórter fotográfico Wagner Almeida. No lugar do grito harmônico ou hipnotizante do rock, o silêncio fúnebre de corpos silenciados a bala, executados em lugar ermo, abandonado, onde impera a lei do silêncio. 

Se houve gritos durante o sinistro não sabemos, nem as fotos revelam, mas podemos imaginá-los e ouvi-los como um eco que ressoa no grande salão da “Casa das Onze Janelas”, tão fortes são as imagens de Wagner, o que lhe valeu uma premiação no IV Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia. 

O silêncio dos corpos tombados projeta o grito não só dos que foram executados, mas também dos que testemunharam e sobreviveram (sabe lá até quando, devem se indagar) às perseguições, às chacinas, às “batidas”, às emboscadas, aos tiroteios, às balas perdidas, às invasões arbitrárias e violentas de domicílios, aos aprisionamentos recorrentes dia após dia. Portanto, a paz que temos aí é a paz dos cemitérios... 

Nas fotos de Wagner, um enigma: corpos tatuados com imagens de santos católicos ao lado dos códigos de uma gramática violenta. O que significa essa relação aparentemente contraditória? Ele tenta decifrá-la. É difícil... Compartilho sua inquietação e me atrevo a uma aproximação possível no exame da relação que une a violência e o sagrado no contexto social vivido por jovens da periferia envolvidos em conflitos violentos. É um desafio que a própria antropologia religiosa teve dificuldades em responder satisfatoriamente até hoje.

“Livrai-nos de todo o mal”, título que dá nome à série fotográfica premiada, constitui uma crônica da morte anunciada e consumada que nos instiga a pensar os porquês do crescimento desta violência destrutiva que paradoxalmente é convertida em objeto publicitário (“chicote neles” é uma das peças que nos remete ao anacronismo dos castigos aplicados aos escravos), vendida como se vende bens de consumo duráveis, a exemplo dos “cadernos de policia” e dos programas de “cobertura policial” (“Metendo bronca” é o mais sinistro) patrocinados por supermercados, cervejarias e até pela Prefeitura Municipal de Belém; será isso o significado do terceiro “S” da tríplice promessa de campanha do alcaide?

Parece-nos que vigora um pacto suprapartidário de exposição sistemática e agressiva do jovem pobre envolvido na economia dos negócios ilícitos onde a ausência de instâncias estatais regulatórias encontra na violência interpessoal e grupal a forma de resolução dos conflitos. 

Essa verdade levou o sociólogo Fernando Henrique Cardoso a engajar-se na luta pela descriminalização da maconha que ele como presidente não conseguiu emplacar, ao contrário do nosso vizinho, o Uruguai de José Alberto Mujica Cordano. Por outro lado, são tantos os casos revoltantes de violação de direitos de simples suspeitos, detidos e inocentes, que já deveriam ter levado o Ministério Público Estadual a tomar providências contra o uso abusivo do poder policial e midiático que fere direitos constitucionais e universais da pessoa humana.

Exemplo inacreditável é o caso recente de uma mãe moradora do bairro do Guamá que, transtornada pela morte súbita da filha, é tida como suspeita de tê-la assassinado; é presa, algemada, escoltada até a delegacia, filmada, fotografada, e constrangida a responder ao vivo a uma repórter por um crime que não existiu; tenta-se frente às câmaras arrancar alguma confissão da pobre mulher! Quanta sensibilidade jornalística... 

Polícia e imprensa parecem atuar como cúmplices, construindo um cenário que beira a ficção. Além disso, tais programas ocupam um tempo extraordinário na programação local seguindo uma lógica banal: se a tragédia humana dá ibope, atrai uma multidão de curiosos, então, por que não explorá-la convertendo-a em “currículo áudio visual” com patrocínio do mercado e assim, incitá-la mais e mais sob o aparente pretexto de combatê-la?

Afinal, é certo que o resultado aparecerá no próximo sufrágio. O império desta razão cínica destrói, antes mesmo que nasça, qualquer possibilidade de instituição de uma ética do bem estar social comum na cidade, de onde poderia advir a esperança de uma condição de segurança pública que hoje não passa de miragem. Jean-Pierre Dupuy nos ensina, “se nos esforçamos sempre em aumentar a eficácia dos meios violentos para conter a violência, mais inatingível ele (o reino do amor) fica”. 

A história do século XX nós dá exemplos emblemáticos da verdade contida nestas palavras. Só os cínicos não vêem, porque a estupidez e a hipocrisia os cegou. A igreja, o crime organizado e o braço armado do Estado (segurança pública) são instituições poderosas que compõem a vida e o imaginário do jovem da periferia. Num sermão, ele ouve que durante mais de dois mil anos os profetas repetiram: Deus não quer sacrifícios. 

Na Bíblia, ele lê: não acreditem que eu tenha vindo trazer a paz sobre a terra: eu não vim vos trazer a paz e sim a espada (Mt. 10:34). Num lixão de papéis recicláveis, ele encontra uma reprodução da tela de Caravaggio baseada no texto bíblico em que Deus ordena Abraão (com a faca em punho) a sacrificar o próprio filho e o anjo lhe oferece a ovelha para livrar o filho da imolação pelo pai. Como ele processa todas essas falas e imagens, fragmentadas e contraditórias? 

Quem vai lhe explicar a exegese do texto sagrado e de como a vingança e os rituais de sacrifícios foram historicamente transformados em tribunal do júri e no sistema penal que temos hoje? O jovem pobre nasce excluído das possibilidades de entendimento da cultura em que vive. 

Além disso, está assujeitado a estes poderes arbitrários, marcados por contradições e ambiguidades e tem de conviver com eles como alma aprisionada em múltiplos conflitos e violações cada vez mais destrutivas, numa espécie de “campo de concentração a céu aberto” (como bem define o sociólogo Edson Passetti), já em idade muito precoce, quando ainda não consegue alcançar o discernimento da miséria de sua condição social. E quando o alcança, se rebela ainda mais, e ao rebelar-se, se expõe às agressividades da repressão disciplinar e aos dispositivos da violência simbólica, acionados em viva voz como um teatro do absurdo nas telas da TV com as câmaras em close penetrando a retina dos seus olhos em corpos acuados.

Na condição de professora, conheci muitos que encontraram uma rota de fuga e resistência ao meio adverso e árido onde nasceram, mas muitos milhares de outros mantêm-se na sujeição e servidão. 

Portanto, não espere gentilezas quando um deles lhe anunciar um assalto na janela do seu carrão 4x4 com uma arma que pode ser até de brinquedo, só para “dar um susto” (jargão que compõe o repertório da cultura da violência e que circula em todas as classes sociais). 

Eles estão ali cumprindo ordens superiores, seja lá de onde for. Suas vidas são nervosas e impacientes desde quando nascem, numa cidade que lhes nega moradia e dignidade, mesmo em plena era do “Minha Casa Minha Vida”, o que denuncia a irresponsabilidade criminosa dos poderes públicos municipais em Belém. 

Poderes que também se mostram incompetentes para regulamentar leis que há muito vigoram em outras cidades, como a outorga onerosa, que obriga que parte da riqueza advinda do boom da indústria da construção dos condomínios de luxo, shoppings e espigões em geral se constitua em fundos públicos destinados à construção de equipamentos urbanos como centros culturais, teatros, bibliotecas, escolas de formação, laboratórios-oficina de arquitetura para soluções de habitação popular com conforto térmico nos bairros da periferia tropical. 

Por que a periferia não pode ser palco da filosofia, das artes e de uma economia cultural com geração de empregos? Não é dela que sai o operariado construtor de todas as riquezas arquitetônicas e a empregada doméstica que limpa a casa das madames? Por que filho de operário e empregada doméstica teriam de seguir o mesmo? Por que não pode ser filósofo, dramaturgo, arquiteto? Porque “artista” ele já é, na arte de sobrevivência no deserto cultural onde se impõe a lei do mais forte. 

Que venham outras premiações para o Wagner Almeida. Quem sabe tomadas instigantes de um show do Emicida nos bairros pobres da periferia de Belém onde a rapaziada possa cantar e gritar como deve ser: feliz da vida! com música de qualidade feita pensando nela, para ela. 


*Marly Silva. Socióloga, professora adjunta da UFPA. Faz um doutorado na área de sociologia da cidade brasileira na PUC-SP. A série de fotos Livrai-nos de todo o mal que compõe o IV Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia pode ser vista até amanhã 26 (domingo), na Casa das Onze Janelas, no horário das 10:00 às 14:00 horas.

23.5.13

“A Arte em seu Labirinto” com humor e ironia

Obra do Prof. Dr. Afonso Medeiros chega ao público nesta sexta-feira, 24, com lançamento às 19h, no Instituto de Artes do Pará. Na ocasião, além da venda do livro e da apresentação do autor, convidados farão leitura de trechos do livro. Entrada franca.

Em“A Arte Em Seu Labirinto”, Afonso Medeiros aborda os principais aspectos da arte contemporânea no Estado do Pará. 

O livro é recomendado por pesquisadores tão importantes quanto ele, como o Prof. Dr. em comunicação, Fábio Castro, o autor percorre debates filosóficos, estéticos, técnicos e históricos, tratados com leveza e ainda assim mantendo a profundidade do tema. 

"O livro vai colocando a questão da obra de arte com bom humor, alguma ironia e metáforas antológicas. O texto é quase uma extensão do Afonso falando: a certeza de uma conversa estimulante, repleta de pistas, inspiradora”, analisa Fábio Castro.

Mais que uma publicação para a academia universitária, este novo trabalho de Medeiros chega ao público preenchendo uma lacuna na literatura sobre a arte contemporânea, especialmente aquela desenvolvida no Pará. O texto leve se amplia a todos, ao romper barreira de escrever para os pares acadêmicos e possibilitar a discussão das artes visuais na esfera atual. 

Considerado um dos maiores pensadores da arte no Pará, José Afonso Medeiros Souza é graduado em Educação Artística/Artes Plásticas pela Universidade Federal do Pará (1985); especialista em História da Arte pela Universidade de Shizuoka (Japão, 1988); mestre em Ciências da Educação/Arte-Educação, também pela Universidade de Shizuoka (1996); e doutor em Comunicação e Semiótica/Intersemiose na Literatura e nas Artes pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001), sob a orientação de Lucia Santaella. 

Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Artes do Instituto de Ciências da Arte da Universidade Federal do Pará, onde coordena o GP sobre Artes e Imagens do Corpo, é também membro pesquisador do GP sobre Crítica e Historiografia da Arte na Amazônia , ambos do PPG-Artes/ICA/UFPA/CNPq. 

Ocupa ainda a cadeira de presidente da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP), gestão 2013-2014. Entre 1986 e 1996, foi bolsista do Ministério da Educação, Ciência e Cultura do Japão, da CAPES (1997-2001 e 2003) e da Fundação Japão (2000). 

De 1998 a 2000 pesquisou o acervo de gravuras japonesas do Instituto Moreira Salles, cujos resultados constam de sua tese e de várias publicações. Foi co-fundador, vice-presidente e presidente da Associação de Arte-Educadores do Estado Pará (AAEPA, 1989-91), além de vice-presidente (1990-92) e Diretor de Assuntos Institucionais (2011-12) da Federação de Arte-Educadores do Brasil (FAEB). 

Foi Coordenador do Núcleo de Artes (2002-05), Diretor-Geral do Instituto de Ciências da Arte (2006-10) da UFPA e membro do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (FAPESPA, 2008-10). Dirigiu o Departamento de Ação Cultural do Município de Belém (FUMBEL, 1991-92), ocasião em que presidiu a comissão de criação do Museu de Arte de Belém (MABE). 

Tem publicado diversos capítulos de livros e artigos, principalmente nos seguintes temas: artes visuais, semiótica, cultura japonesa (artes visuais, teatro, literatura), teorias da arte (filosofia, crítica e história) e arte/educação. Organizou o I e o II Fórum Bienal de Pesquisa em Arte (2002/2004) e o 1º e 2º Colóquio Interartes (2010/2011). 

Serviço
Lançamento do livro “A Arte em seu Labirinto” de Afonso Medeiros. Nesta sexta, 24 de maio de 2013, às 19h, no Instituto de Artes do Pará, com leitura de trechos da obra e venda autografada de exemplares. Entrada franca. Mais informações: (91) 8190 8270 / 8889 3639 / 4006 2945

(com informaçõe da Assessora de Imprensa IAP – Dani Franco). 

22.5.13

Belém recebe Encontro Contemporâneo de Dança

De 24 a 26 de maio o Instituto de Artes do Pará (IAP) e o Teatro Waldemar Henrique serão palcos do III Encontro Contemporâneo de Dança, promovido pela Cia. Experimental de Dança Waldete Brito, que terá mesas de debate, oficinas e apresentações artísticas de grupos locais. 

Realizado nos anos de 2006 e 2008, o encontro contemporâneo de dança é direcionado a estudantes de dança, bailarinos, professores, coreógrafos e artistas em geral e busca promover o encontro de companhias que possuem trabalhos construídos diariamente nos espaços e ensaios, aperfeiçoando a utilização do corpo na cena e a técnica corporal. Nas duas primeiras edições, o encontro era promovido durante o período de três meses com debates, oficinas, grupos de estudos e processos de construção de projetos cênicos. 

“A finalidade era provocar os participantes a encontrarem metodologias particulares de desenvolver uma ideia em espetáculos. A importância da pesquisa como o caminho para materializar a dramaturgia da dança, e assim, contribuir para o volume de espetáculos de dança contemporânea se configurava como um dos objetivos do encontro”, conta Waldete Brito. 

Em 2006 e 2008 participaram os intérpretes-criadores Nely Brito, Caroline Castelo, Anderson Pantoja, Gemile O’ de Almeida, Suzy Guerreiro, Marilene Melo, Kleber Dumerval, Carlos Moraes, dentre outros artistas que apresentaram 20 espetáculos de dança.

De acordo com a análise de Waldete Brito, existem poucas companhias permanentes de dança contemporânea em Belém que tentam sobreviver mesmo sem políticas públicas de editais de produção, difusão e circulação dessa arte no Estado.

“A falta desta política reflete na baixa produção nesta área de criação, e com isso, fragiliza a formação de público. A dança contemporânea paraense, na sua singularidade, vai aos poucos encontrando a diversidade da estética contemporânea”, conclui Waldete. 

3ª edição  - E é para estimular a criação artística a partir da diversidade que será realizado o III Encontro Contemporâneo de Dança. O convidado especial desta edição é o pesquisador, diretor e intérprete-criador João Andreazzi, de São Paulo. As inscrições ainda estão abertas no Espaço Experimental de Dança Waldete Brito.

A programação começa às 16h com o credenciamento no dia 24, no teatro Waldemar Henrique. Em seguida, às 19h, inicia a abertura do evento com a mesa temática “Companhias independentes de dança: desafios da produção cênica em mais de uma década”, com Jaime Amaral, João Andreazzi e Waldete Brito.

Às 20h os grupos Companhia Moderno de Dança, Ribalta Cia. de Dança e Grupo Coreográfico da UFPA apresentam os espetáculos “Enquanto instante”, “Eutônus” e “Redemoinho”, respectivamente. No dia seguinte, 25, o encontro continua no IAP às 9h com a oficina de crítica cultural, ministrada pelo jornalista Ismael Machado e às 10h30 com a oficina de dança contemporânea, ministrada por João Andreazzi (SP).

No Waldemar Henrique a programação começa às 18h com a mesa de debate “Os desafios da produção cultural”, com Tânia Santos. Em seguida, às 20h, apresentam-se a Companhia de Ballet Jaime Amaral, com “Matintas”, Companhia Mirai de Dança, com “Cinesiofagia urbana” e Companhia Compassos de Dança, com “E se as cabeças fossem quadradas”. Já no domingo, 26, o encontro inicia às 9h no IAP com o segundo dia das oficinas de crítica cultural e dança contemporânea.

No teatro Waldemar Henrique haverá, às 18h, a mesa de debate “Dança e políticas públicas”, com Ana Claudia Costa. Às 20h a Cia. Experimental de Dança Waldete Brito apresenta o espetáculo “(Des)Vestido”, inspirado no poema “O caso do vestido”, de Carlos Drummond de Andrade.

O III Encontro Contemporâneo de Dança encerra com “LA.B”, solo de improvisação de João Adreazzi utilizando procedimentos criados para o espetáculo “Na infinita solidão dessa hora e desse lugar”, inspirado no texto de Bernard-Marie Koltès e na Rua Augusta, de São Paulo.

Para participar - As inscrições seguem abertas e podem ser feitas no Espaço Experimental de Dança Waldete Brito (Rua Domingos Marreiros, 1775, entre 14 de abril e Castelo Branco), das 15h às 20h. Basta solicitar a ficha de inscrição pelo email ciaexperimentaldedancawb@bol.com.br. 

O investimento é de R$ 10 para estudantes e R$ 20 para professores, diretores e coreógrafos. As mostras de dança no Teatro Waldemar Henrique são abertas ao público em geral e os ingressos custam R$ 10 com meia entrada para estudantes. 

Serviço
III Encontro Contemporâneo de Dança. De 24 a 26 de maio no Instituto de Artes do Pará e no Teatro Waldemar Henrique. Mais informações: http://www.ciaexperimentaldedancawb.blogspot.com.br/ e (91) 3246-4698.

Concerto com Márcia Aliverti e Adriana Azulay

Ao lado da pianista Adriana Azulay, Márcia Aliverti, uma das sopranos de maior destaque do canto lírico paraense, volta aos palcos depois de quatro anos ausente, afastada da cidade para a conclusão de seu doutorado em Música. A apresentação é logo mais, nesta quarta-feira, 22, às 20h, na Igreja de Santo Alexandre, com entrada franca.

No recital “Emoções em Contraste”, a soprano e a pianista reuniram peças tão diversas quanto seus autores. No repertório há Antonio Vivaldi, Franz Schubert, Gabriel Fauré, Manuel De Falla, Oriano de Almeida e Heitor Villa-Lobos, entre outros. 

“Para este retorno a Belém, decidi escolher um repertório com as peças que eu mais gosto e me identifico. São canções e árias que não têm um tema em comum, a não ser exatamente essa minha vontade de cantá-las, e da Adriana de tocá-las. Há peças que cantei várias vezes, do mesmo modo que têm outras que nunca cantei. É o caso de ‘Agitata da due venti’, da ópera La Griselda, de Vivaldi, que é rápida e de alto grau de dificuldade, exigindo muitos ensaios”, conta Márcia Aliverti. 

O recital “Emoções em Contraste” abre as comemorações dos 50 Anos da Escola de Música da UFPA (Emufpa) e acontecerá na próxima quarta-feira, dia 22, às 20 horas, na Igreja de Santo Alexandre, com entrada franca. Para a pianista Adriana Azulay, que até o ano passado era diretora da Emufpa, as comemorações têm um gostinho especial. 

“Muitas coisas aconteceram durante estes 50 anos. Um dos pontos que destaco é que levou todo esse tempo para termos um prédio definitivo para a Emufpa. E ele já está em fase final de construção. É uma vitória. 

A importância do recital em si, é que é sempre uma satisfação fazer música. E confesso que durante os dois anos que estive na direção da Escola, não pude me dedicar o quanto gostaria ao ‘fazer música’, mas agora está sendo um retorno importantíssimo para nós duas”, conta.

Dona de uma voz de soprano lírico de brilho notável, Márcia Aliverti foi aluna do tenor espanhol Alfredo Krauss, mestre cuja técnica inigualável muito influenciou sua atual performance vocal. É violinista formada pelo Conservatório Carlos Gomes e iniciou seus estudos de canto em Belém com o maestro Adelermo Mattos, passando em seguida a estudar em Goiânia com a professora Honorina Barra. 

É uma das cantoras líricas mais reconhecidas e ativas do Pará, tendo ganhado dezenas de prêmios e concursos desde o final dos anos 1970 quando começou a atuar. Como professora, atua tanto no canto lírico como no popular, exportando talentos para a Europa e ministrando aulas para grandes nomes da música popular paraense como Lucinha Bastos, Luciano Jr., Heraldo (da banda Fruta Quente), Edmar da Rocha (Mosaico de Ravena), Gabriela Pinheiro (ex-Álibi de Orfeu), Adriana Cavalcante, Patrícia Lia e Flávia Anjos (Batom Carmim). 

Já se apresentou em Portugal, Espanha, Itália, Suíça, EUA, Argentina, França e em quase todas as capitais brasileiras, participando ativamente do cenário musical paraense. Tem especialização em canto lírico na Arts Academy de Roma (Itália) e é mestra em Musicologia pela USP de São Paulo e doutora em Execução Musical pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) – para realizar esta última pós-graduação ausentou-se dos palcos paraenses nos últimos quatro anos. 

Adriana Azulay, por sua vez, iniciou seus estudos de piano aos seis anos com a professora Dóris Azevedo, onde concluiu o 2º grau em piano pelo Conservatório Carlos Gomes. 

Em 1999 participou da Academia Internacional de Piano na classe da professora Fany Solter em Karlsruhe (Alemanha), recebendo ao final do curso a seguinte crítica do jornal Badischeneue Nachritchten: “A pianista brasileira Adriana Azulay desenvolveu em ‘Festa no Sertão’, de Villa Lobos, um fogo brasileiro aliado a uma imensa sensualidade sonora.” 

Concluiu em 2000 o curso de Bacharelado em Música na classe da professora Glória Caputo, da Fundação Carlos Gomes (UEPA) e desde então vem participando dos mais diversos concertos como solista e camerista. Concluiu com nota máxima o mestrado em Música de Câmara na Universidade de Karlsruhe (Alemanha), na classe dos professores Michael Uhde e Fany Solter. É doutora em Música de Câmara pela Universidade de Saarbrücken (Alemanha), pela classe da professora TatevikMokatsian.

"Abraço" de volta em cartaz no Sesc Boulevard

Mais um espetáculo entra em cartaz em Belém esta semana. Em curta temporada, de 23 a 26 de maio,  "Abraço", com texto e direção de Edyr Augusto Proença, conta a trajetória de vida e angústias de um homem de 80 anos. Em cena, os atores Cláudio Barradas e Zê Charone. A realização e produção é do Grupo Cuíra de Teatro, com consultoria artística de Cacá Carvalho. Sempre às 21h, com classificação indicativa de 14 anos e com entrada franca. A distribuição de ingressos acontece com uma hora de antecedência.

Em cena, um diálogo de desabafo entre um senhor, interpretado pelo ator Cláudio Barradas e uma mulher, vivida por Zê Charone. O drama é uma reflexão sobre quem somos. Retrata a solidão de um homem na cidade grande, que vai perdendo amigos e família. Vive fechado, cercado por livros, discos, filmes antigos, até ficar sem vontade de viver. 

O personagem é rico em história, cultura e experiência, porém, não tem ninguém com quem trocar ideias. Numa madrugada qualquer, ele recebe a visita inesperada de uma mulher que irá preencher seus anseios por companhia. E em um desabafo o idoso começará a contar histórias de sua vida para a visitante. Como uma espécie de confidente, ela ouvirá atentamente suas lembranças. Para ele será como receber o “Abraço”, um abraço da vida ao se entregar à morte. 

Cláudio Barradas, um ícone do teatro paraense, em “Abraço” entrega-se inteiramente ao personagem, demonstrando vigor, técnica e o talento de sempre. Zê Charone é atriz de grande experiência e dedicou-se à estruturação do Teatro Cuíra. Para ela contracenar com Barradas é a realização de um sonho.

Serviço
Espetáculo “Abraço”. No Centro Cultural Sesc Boulevard, de 23 a 26 de maio, às 21h (ingressos distribuídos uma hora antes do início do espetáculo) - Endereço: Boulevard Castilho França, 522/523 - em frente à Estação das Docas). Entrada Franca. Informações: (91) 3224-5305/5654. Na Internet: sescboulevard@gmail.com / blog: sescboulevard.blogspot.com/ Twitter: @sescboulevard / Facebook: Sesc Boulevard.

20.5.13

Homens e Caranguejos no Pará e no Acre

Escrita e encenada por Luciana Lyra, em parceria com o Coletivo Cênico Joanas Incendeiam, o grupo se apresenta nos dias 22 e 23 de maio, no Teatro Waldemar Henrique, em Belém, e nos dias 25 e 26, na Usina de Arte João Donato, em Rio Branco, sempre às 20h. 

A história de um menino pobre abrindo os olhos para o mundo desenha a dramaturgia de Homens e Caranguejos, construída a partir do romance homônimo de Josué de Castro. Inspirado na obra do geógrafo e sob influência de parangolés de Hélio Oiticica, o espetáculo traz canções originais compostas a partir dos ritmos do mangue beat e hip hop. 

Movidas pelas múltiplas vozes e um tema, a fome, a dramaturga e atriz Luciana Lyra se aliou ao Coletivo Cênico Joanas Incendeiam, composto pelas atrizes Beatriz Marsiglia, Camila Andrade, Juliana Mado e Letícia Leonardi, e juntos realizaram a montagem de Homens e Caranguejos, baseado no romance homônimo do geógrafo pernambucano Josué de Castro, escrito em 1966. 

Através do projeto contemplado pelo Prêmio Funarte Myriam Muniz de Teatro 2012, Homens e Caranguejos circulará pelas regiões Norte e Nordeste do Brasil até o final deste ano. “O objetivo é difundir a obra e o legado de Castro acerca da miséria e da fome no Brasil, principalmente nessas regiões onde ainda hoje são vigentes práticas rudimentares de alimentação, apresentam cultivo agrícola limitado, bem como maior percentual de pobreza e ocupação imprópria do espaço público no país”, justifica Luciana Lyra.

Nos meandros desta sua única investida literária, Castro discorre sobre o cotidiano da Aldeia Teimosa, comunidade ficcional, onde não se paga casa, come-se caranguejo e anda-se quase nu. A trama gira em torno de um menino de onze anos, que chegou aos mangues do Recife com sua família, fugindo da seca de Cabaceiras após a morte do irmão mais velho. 

Sua vida se divide entre ser um catador de caranguejos, a vontade de brincar e a amizade com um ex-seringueiro que vive no seu mocambo com suas pernas imóveis. Para Luciana Lyra, o espetáculo é permeado de histórias tocantes, cômicas e analisa o fenômeno social da fome em todas as suas contradições e consequências com o objetivo de desnaturalizá-la e problematizá-la como uma criação humana. Para isso, o grupo foi além da obra. 

“A ideia não é a transpor literalmente o romance, mas sim, a criação de fricções entre o universo criado por Josué e o cotidiano de duas comunidades brasileiras: a Ilha de Deus, em Recife, e o Boqueirão, em São Paulo, são os pontos investigados pelas atrizes desde 2010”, ressalta. 

Lyra diz que a dramaturgia é alimentada não somente por Josué e pelas comunidades, mas afetada por pensadores e artistas, que vão em busca da revolução social através de muitas maneiras, tais como teatro de Brecht, o Cinema Novo de Glauber Rocha, parangolés e penetráveis de Hélio Oiticica. 

A dramaturgia também é embalada pela influência do mangue beat de Chico Science e do movimento do hip hop paulistano, parâmetros que inspiraram a montagem da peça que pode ser assistida sob a perspectiva de um palco arena. “Considero o espetáculo uma estratégia de guerrilha, no qual comunidades e atrizes estão sujeitas ao discurso, de desejos atuantes no processo social”, define. 

Encontro - A montagem surgiu a partir do encontro entre Luciana Lyra (então, Cia. Duas de Criação), atriz, diretora e dramaturga recifense, e o Coletivo Cênico Joanas Incendeiam, cujo ponto de partida, em 2010, surgiu do embate criativo das artistas envolvidas com a força imagética e dramática do romance Homens e Caranguejos, de Josué de Castro. 

Entre 2010 e 2012, os grupos viveram o processo de criação do espetáculo, passando a integrar, como linha de pesquisa, o Grupo Terreiro de Investigações Cênicas (IA/UNESP), assim como o projeto passou a fazer parte da investigação de pós-doutorado em Antropologia (FFLCH/USP), da encenadora, diretora e dramaturga Luciana Lyra e do Núcleo de Pesquisa em Performance e Drama(NAPEDRA/USP-UNICAMP).

Nesta investigação, foi-se aprofundando o conceito de Artetnografia, complexo metodológico de apreensão das experiências de campo pelos artistas, no fomento à cena performática. Guiadas pela Artetnografia, a equipe de criação do trabalho encontrou comunidades semelhantes à Aldeia Teimosa, lugarejo ficcional do romance de Castro, criando uma fricção entre o real e o imaginário. 

Caíram em campo na Ilha de Deus, no coração da cidade do Recife, e no Boqueirão, em São Paulo, buscando descortinar a atualidade da obra de Josué, entrecruzando a experiência do cientista, poetizada em seu romance. O espetáculo já estreou na cidade de São Paulo em maio de 2012 e já esteve em Mogi das Cruzes, Suzano e São Roque, e em Recife - PE. Em março e abril de 2013, cumpriu temporada no Teatro João Caetano, em São Paulo. 

O romance - Traduzido em várias línguas, o romance do geógrafo já foi adaptado para o teatro pela francesa Gabriele Cousin com o título Le Cycle du Crabe ou Les Aventures de Zé Luiz, Maria et Leurs Fils João, em 1969, mas nunca foi encenado e nem outra dramaturgia foi produzida em âmbito nacional, especialmente criando interfaces do texto romanceado com a realidade de comunidades existentes no Brasil contemporâneo, como é o caso desta montagem. 

“Este livro é a história da descoberta da fome nos meus anos de infância, nos alagados do Recife, onde convivi com os afogados deste mar de miséria. Procuro mostrar neste livro de ficção que não foi na Sorbonne, nem em qualquer outra universidade sábia que travei conhecimento com a fome. 

O fenômeno da fome se revelou espontaneamente a meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis da cidade do Recife: Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite e tantos outros. Esta foi minha Sorbonne, a lama dos mangues do Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejos, pensando e sentindo como caranguejos”.

Parte da pesquisa de pós-doutorado em Antropologia da encenadora na Universidade de São Paulo, a montagem foi realizada com apoio do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado de Cultura – Programa de Ação Cultural 2011 (teve sua estreia em maio). Cumpriu temporadas em São Paulo, nas cidades de Mogi das Cruzes, Suzano e São Roque e em Recife-PE, cidade natal do autor.

Entre março e abril de 2013, Homens e Caranguejos fez temporada no Teatro João Caetano, em São Paulo-SP. Através do Prêmio Funarte Myriam Muniz de Teatro -2012 o espetáculo circula em 2013, às regiões Norte e Nordeste. Nas cidades de Belém, o grupo conta com o apoio de Universidade Federal do Pará-UFPA e em Rio Branco, Fundação de Cultura Elias Mansour, Usina de Teatro João Donato. 

Ficha Técnica
Dramaturgia e Encenação: Luciana Lyra
Assistente de Direção e Dramaturgia: Mariana Souto Mayor 
Atrizes-criadoras: Beatriz Marsiglia, Camila Andrade, Juliana Mado, Letícia Leonardi
Espaço Cenográfico e Design Gráfico: Vânia Medeiros 
Direção Musical: Nilton Jr. 
Figurinos: Ofélia Lott 
Desenho e Operação de Luz: Silvestre J. R. e Carol Autran 
Preparação Corporal: Viviane Madu 
Preparação Musical: Mestre Nico 
Preparação Vocal: Bel Borges 
DJ/Sonoplasta: Eumar Lima (Mazinho) 
Produção Musical: Buguinha Dub e Paulo César 
Tó Produção Videográfica: Rafaela Penteado 
Operação de Vídeo: Raiça Bonfim 
Fotografia: Alicia Peres 
Produção Geral: 
Realização: Luciana Lyra -Una(L) Temp(l)o de Pesquisa e Criação de Arte, Karla Martins – Decanter Articulações Culturais e Coletivo Cênico Joanas Incendeiam - SP

Serviço
Homens e Caranguejos ( 50 minutos/Classificação: 12 anos). Em Belém-PA: Teatro Waldemar Henrique (Av. Pres. Vargas, 645 – Campina) - quarta, 22, e quinta-feira, 23 de maio, às 20h. Ingressos: R$ 20 (meia R$ 10). Lotação: 170 lugares. Acesso a deficientes físicos. Informações: 91-3222-4762.

Solo de Marajó ganha espaço no Museu Histórico

Depois da circulação que fez pelas cidades marajoaras de Muaná, Soure, Salvaterra, Cachoeira do Arari e Ponta de Pedras, durante os meses de abril e maio, “Solo de Marajó”, da Usina Contemporânea de Teatro, estará em cartaz em Belém, de 21 de maio a 26 de junho, às terças e quartas, sempre às 20h, no Salão de Artes do MHEP. 

Em “Solo de Marajó”, o ator Claudio Barros narra oito histórias tiradas do “Marajó”, o segundo romance escrito por Dalcídio Jurandir. No palco vazio, Cláudio constrói em cena um universo poético para expressar o drama do homem amazônico, refletido de forma tão profunda na extensa obra do autor. 

A circulação pelo arquipélago, região em que nasceu o escritor, teve público de mais de mil pessoas. Além do público comum, as plateias estiveram repletas de estudantes e professores de literatura, que enriqueciam o debate proposto pelos artistas logo após cada apresentação. 

 A experiência recente de levar as narrativas de Dalcídio para mostrar ao próprio povo que a inspirou, no Marajó, revelou-se surpreendente para os criadores do Usina, pelo nível de identificação que despertou nos espectadores em relação ao espetáculo.

Nesta reestreia em Belém (“Solo de Marajó” ainda não foi apresentado na capital este ano), o espetáculo vem aquecido pelo intenso contato com o público e pelos constantes ensaios que ator e diretor realizaram durante a circulação, sempre com o objetivo de tornar a atuação cada vez mais viva no corpo do ator. 

As oito narrativas de “Solo de Marajó”, escolhidas pelo ator e diretor do espetáculo, Alberto Silva Neto, em parceria com o dramaturgo Carlos Correia Santos, possuem autonomia dramatúrgica e não procuram dar conta da fábula do romance. Juntas, as histórias constroem um panorama da vida no Marajó ao misturarem, no mesmo universo poético, temas como infância, paixão e saudade, com dramas amazônicos tais como exploração de crianças, violência contra a mulher, adultério e morte. 

Durante a criação do espetáculo, o ator utilizou como matéria prima experiências de vida e referências pessoais para compor sua atuação, construindo uma partitura de ações físicas que remete a sua própria memória enquanto narra as histórias contadas no romance por Dalcídio. 

Com este “Solo de Marajó”e também “Parésqui”, o outro espetáculo de repertório do Usina no qual as atrizes Valéria Andrade e Nani Tavares imitam gesto e fala para narrar histórias de vida de uma família de ribeirinhos que mora na Ilha do Combu, o grupo Usina Contemporânea acredita estar construindo uma poética cênica amazônica, que parte da pesquisa sobre o ator como narrador. 

Para o futuro, o grupo planeja realizar um terceiro exercício cênico, a partir de narrativas míticas de povos indígenas que habitam a Amazônia. E ainda realizar uma segunda circulação de “Solo de Marajó” que alcance outros municípios marajoaras. “Solo de Marajó” conta, ainda, com produção executiva de Sandra Condurú, assistência de direção de Fátima Nunes, iluminação de Iara Regina de Souza, fotografias de JM Condurú Neto e projeto gráfico de Alan Moraes e Paula Henderson. 

Serviço
Solo de Marajó (55min.). Realização Cia Usina Contemporânea de Teatro e Tá Produuções. De 21 de maio a 26 de maio, às terças e quartas-feiras, às 20h, no Museu Histórico do Pará (MHEP) - Palácio Lauro Sodré. Entrada franca. Apoio Cultural: Centro de Danças Ana Unger.

(com informações da assessoria de imprensa)

Guy Veloso ministra oficina na Fotoativa

“Do poético ao prático: fotografia documental” é destinada a fotógrafos e estudantes avançados de fotografia, interessados em compartilhar informações sobre a construção da poética fotográfica. Inscrições abertas para a oficina que será realizada entre os dias 29 de maio e 1º de junho.

Durante os quatro aulas, serão abordadas as etapas necessárias à realização de um ensaio fotográfico: concepção, pesquisa, produção, execução, exibição, pós-produção. Além disso, serão abordados outros temas como as técnicas de abordagem, a ética fotográfica, o mercado de fotografia autoral e as formas de apresentação de projetos a galerias e museus. 

Ser fotógrafo ou artista cada vez mais exige profissionalização e dedicação ao ofício. O curso possibilitará a análise de um projeto temático de média e longa duração, desde a sua concepção, passando por fases como a pesquisa, a realização, a exibição e a pós-produção. 

Guy Veloso usará como exemplo o projeto “Penitentes: dos Ritos de Sangue à Fascinação do Fim do Mundo”, desenvolvido entre os anos de 2002 e 2010 (fotos que iilustram este post). “Não iremos falar de questões técnicas, de fotografia analógica ou digital, mas sim compartilhar informações que cada pessoa poderá aplicar da forma como desejar, seja utilizando um equipamento profissional ou até um celular”, explica o ministrante.

Os participantes serão estimulados a identificarem temas de ensaios fotográficos, diferenciando as formas de abordagem de personagens, além de contarem com informações sobre como valorizar e indicar algumas formas de editar um portfólio e produzir projetos para salões e concursos. 

As inscrições já estão abertas, sob o valor de R$ 100, e as aulas serão realizadas no casarão da Fotoativa, das 19h às 22h nos dias 29, 30 e 31 , sendo das 9h às 12h no último dia. Para se inscrever, basta procurar a secretaria da Associação, localizada na Rua das Mercês, número 19, no bairro da Campina. Contatos podem ser feitos pelo número (91) 3225-2754 ou email a.fotoativa@gmail.com