31.12.17

2018 para reafirmar as conquistas e produzir mais

Na última pauta do ano ouvi três artistas importantes na cena cultural paraense. Pinçar só três pessoas de um cenário rico, vasto, criativo, produtivo e infinito como o de Belém, não seria tarefa fácil, por isso fui intencional e sobretudo pelo filtro da contribuição e produção deles para o cenário cultural. Na rápida análise política do blog, compartilho com vocês o papo com a musicista e produtora cultural Carla Cabral, a cineasta Jorane Castro e o músico e pesquisador Marcello Gabbay.

2017. O ano mal tinha começado e em março, um incêndio no Museu de Arte de Belém - Mabe foi um presságio para a área da cultura em Belém do Pará, onde ano fecha como se não tivesse começado do ponto de vista das políticas públicas de cultura. Na gestão cultural do município, o Mabe continua chamuscado, com salas fechadas ao acesso do público, e também retrocedemos com a  nova Lei Valmir Bispo dos Santos aprovada pelos vereadores. O novo texto  enviado por Zenaldo Coutinho além de perdas para a área cultural também atrasou o processo de implantação do Fundo Municipal de Cultura. 

“O sistema político em que vivemos está totalmente falido. É impossível achar que culturalmente foi um ano exemplar. Acho que sempre será produtivo quando falamos em termos de criação, mas de escoamento, de realização de shows, festivais e mostras é tudo muito restrito, pouca verba, pouco patrocínio. Políticas culturais ainda com falhas, embora existentes. Infelizmente ainda foi um ano em que a gente sobreviveu da arte, ainda não foi aquele ano de se respirar ar farto e limpo”, diz Carla Cabral. 

Carla Cabral  é musicista. Integra o movimento do Choro Paraense. É produtora cultural e uma das responsáveis pelo projeto que revitalizou o maior reduto do choro em Belém do Pará, a Casa do Gilson. Em 2017, ela levou adiante o projeto “O Mercado do Choro”, que vivencia a cidade e sua realidade. 

Carla Cabral -  O Mercado do Choro, no Mercado de Carne 
“Passei o ano me sustentando de tocar em bares e dar aula, sem grandes aportes financeiros (risos). Com certeza, para outros artistas foi ainda mais difícil. Eu percebo as dificuldades da cena, por isso, dar as mãos é cada vez mais necessário. Assim como ter percepção das políticas culturais e não apenas do glamour de ser artista (risos)”, diz. 

A estagnação na área cultural não se restringe ao município. No Estado a Secretaria de Cultura segue com seus dois principais projetos o Festival de Ópera e a Feira Pan Amazônica do Livro. Por outro lado, dentro desta estrutura, a Fundação de Cultura do Pará tem nos direcionado uma política de editais somando à Lei Semear que garante projetos junto a editais nacionais.

A política dos micros editais SEIVA deu certo fôlego à produção de pequenos projetos. A Bolsa de Experimentação Artística, o edital de Produção e Difusão e o edital Pauta Livre impulsionaram e devem continuar impulsionando a produção de CDs, shows e espetáculos que geraram também a  programação cultural ao público nos teatros e espaços culturais da FCP.

“2017 foi um ano de muita labuta. A impressão que eu tenho é de que a cena ficou mais estreita, retraída. Eu costumo dizer que cidades como Belém (re)existem apesar de todo descaso e mau entendimento de cultura nas instâncias governamentais e privadas; mas mesmo assim, em cidades como São Paulo, contamos com uma nova visão política que não pensa mais os espaços públicos como espaços de ocupação, mas como oportunidades de mercado. E isso é preocupante. Vejamos, por exemplo, a “treta” recente entre o teatro Oficina de Zé Celso e o grupo de Silvio Santos, desastrosamente mediado pela prefeitura de São Paulo”, comenta Marcello Gabbay.

Residindo em São Paulo, o também professor lança, logo no início do ano o livro de sua pesquisa de Doutorado na UFRJ sobre o carimbó de origem marajoara. O blog vai publicar em breve uma entrevista com ele sobre a obra. O lançamento será dia 11, na véspera do aniversário da cidade, na Livraria da Fox.

Na área da produção audiovisual vimos muitas produções serem lançadas por iniciativas independentes também ou por meio de outros editais. A cineasta Jorane Castro viu em  2017 seu primeiro longa, o filme “Pra Ter Onde ir” ganhar asas e avoar e também já tem novos planos cinematográficos para 2018, com filmagens em Belém, um novo longa. Otimista , ela acredita em 2018 segue a resistência cultural.

“Analisando um pouco o cenário artístico e cultural de Belém, o ano de 2017 foi um ano em que a gente viu qual a força que existe na organização do pensamento e da reflexão de quem produz um olhar sobre a cidade. A gente viu muitos lugares acontecendo, muitos artistas  novos se colocando, festivais novos aparecendo, artistas novos, um cenário novo surgindo, a gente vê vitalidade aparecendo, aliás, como sempre foi , no Pará. Nós temos uma arte viva, sabemos qual o potencial e a capacidade criativa e artística que a gente tem em todas as áreas de expressão. Este ano foi bom pra gente ver as coisas acontecerem, muita vibração boa e muito resultados”, diz Jorane.

A cineasta ressalta que em 2017, a arte como reflexão da sociedade em que ela está inserida, foi um ato de resistência. “Foi um ano em que a sociedade civil deu o recado, e a politica pública continua inexistente, em nível de estado ou de município, não há diálogo estabelecido entre gestores públicos das áreas de cultura e pessoas que produzem esse conhecimento, falta diálogo. Foi um ano de resistência”, afirma.

“O Circular justamente fortalece a virilidade de tudo que falei, de você ver o quanto tem gente se organizando, pensando a ocupação da cidade e qual a cidade que a gente quer, e tudo isso através de quem produz e faz arte, produz culturalmente na cidade. Estas pessoas é que fazem e escrevem o futuro e que eu acho que é função de quem é cidadão e artista", comenta Jorane.

Expectativas para o ano novo da cultura paraense

Jorane no set de "Para Ter Onde Ir"
O que importa é não jogar a toalha e seguir adiante. Embora as coisas não tenham sido fáceis em 2017, houve a produção e reinvenção no meio cultural. Todos concordam. Por isso s expectativas para 2018, ao contrário do que se poderia pensar, são otimistas. 

"Acho que 2018 será bom, frutífero, cheio de novas perspectivas em todas as áreas da cultura. Espero que isso tudo que vivemos em 2017 floresça mais ainda, que toda a nossa cultura que é a que a gente já conhece, estuda e já respeita e admira seja reconhecida ainda mais" diz Jorane Castro.

As conquistas foram tanto do ponto de vista coletivo quanto pessoal. Carla Cabral este ano produziu o Mercado do Choro, projeto que foi tema de uma entrevista com ela aqui no blog, mas também apresentou na TV o programa Timbres (TV Cultura), que valoriza o segmento da música instrumental. E ainda fez a produção musical de um documentário sobre a Casa do Gilson, que estreou agora em dezembro na telinha.

Casa do Gilson ganhou documentário 
produzido pela TV Cultura do Pará.

“Foi esse ano também que ganhamos um documentário maravilhosos sobre os 30 anos da Casa do Gilson, produzido pela TV Cultura do Pará. Tive a honra de fazer a produção musical desse documentário e tenho certeza que ele é uma escritura de uma boa parte da música paraense.  Além disso, inicio um novo momento mais voltado para a composição e o estudo da música, começo a abandonar aos poucos a produção executiva de outros trabalhos, para me dedicar bem mais ao Mercado do Choro e à pesquisa do gênero. Sinto que fecho um ciclo, que venham as surpresas do próximo”, diz.

Para ela, 2018 pede uma "labuta diária e de entender cada vez mais que temos que nos responsabilizar pelo nosso trabalho, correr atrás, nunca esperar sentado". Carla ressalta também a democratização do acesso à cultura e a responsabilidade para com o ensino e a compreensão da arte.

"Temos que nos responsabilizar pela democracia da arte; ter compromisso com a educação através da arte; ter compromisso com a cidade, com as necessidades culturais que ela apresenta. Ser menos egoísta, ter preocupação social, entender o contexto em que a nossa arte está existindo e contribuir para um país melhor", diz ela, que também cita como exemplo disso os projetos Circular Campina Cidade Velha e o Aparelho. "É uma evidência da força que temos (quase que) independente de federação, estado e munícipio. Pois, não sejamos hipócritas, essas três esferas tem responsabilidades com a produção cultural desse país e se houver financiamentos honestos, não vejo o porquê de não nos valermos”, finaliza Carla Cabral. 

Gabbay com Neto Rocha - O Campo e a Cidade
Vivendo entre Belém e São Paulo, Marcello Gabbay também fecha o ano feliz e comemora sua produção. “Foi um ano de grandes feitos. Na vida universitária, saiu meu livro finalmente. Foram 8 meses revisando e editando. Também estive em congressos pelo Brasil recentemente falando desse tema da ocupação das cidades. Em 2018, esse tema vai crescer, porque eu, a Luciana Gouveia (que é a minha namorada) e a professora Raquel Paiva da UFRJ, estamos preparando um trabalho grande sobre isso”, diz o músico.

Observador, produtor e consumidor da cena, em São Paulo ele viu a música paraense reverberar. “O Clarimbó do Antônio Novaes fez muito paulista bailar esse ano, esbarrando na noite da cidade com queridíssimos artistas, como Jaloo e o Felipe Cordeiro, que eu respeito muitíssimo, e que fez uma linda canja com a gente na Vila Madalena", comenta Marcello. 

Integrante do duo "O Campo e a Cidade", junto ao músico Neto Rocha, ele comemora também o disco “Tarot”. "Fizemos shows mais concisos, como no lançamento em agosto, e em setembro na Avenida Paulista. Agora é apertar os cintos para 2018, que apesar de tudo vai ser mais um ano de novos trabalhos. O Campo e a Cidade vai gravar, com certeza. Já temos um novo repertório e um novo som a caminho. Vamos também querer tocar em Belém, isso está na agenda já. Além de outros planos ainda secretos (risos). Sigamos em frente!”, vibra.

Jorane e Felipe Cordeiro, no Circular Campina Cidade Velha
(Agosto 2017. Foto: Marcelo Lelis).
Para Jorane Castro, devemos estar preparados e atuantes para que em 2018 superemos os desafios de um país devastado pela política vigente.  

"Espero que mesmo que estejamos em um momento difícil no Brasil, com muita intolerância, com uma desigualdade se firmando cada vez mais, e a diversidade sendo uma ameaça para alguns, todas as questões que devem ser debatidas, venham à tona de forma mais positiva em 2018. A gente é forte, a gente é do Norte. E a gente vai muito longe com este pensamento, porque é em nós que existe essa possibilidade de construir uma cidade melhor, um estado melhor,  esta Amazônia melhor, a região mais linda e incrível que merece ser valorizada e amada!”, finaliza a cineasta.

No meio da turbulência da era #foratemer, com o Ministério da Cultura destroçado, a ANCINE seguiu sua política, embora com desfalques. Espera-se agora em 2018 várias estreias de séries, documentários e filmes de ficção produzidos na região norte. Hora de ver o que fizemos, na telinha, as produções realizadas com o edital Prodav-8 que vai  apresentar agora seus primeiros frutos, ainda do edital lançado em 2014. Isso vai ser ótimo.

FELIZ 2108!!!!

29.12.17

Tem músico paraibano na cena cultural paraense

Naldinho Freire é músico, educador, compositor e pesquisador. Nasceu na Paraíba (PB) e depois de ter passado por algumas cidades brasileiras, entre elas Maceió, em Alagoas, este ano passou a morar em Belém do Pará, onde já mergulha na cena cultural. O artista topou participar da retrospectiva do blog e falar do cenário da cultura no Brasil e do projeto  “Sem chumbo nos pés”, com o qual viajou o país este ano.

30 anos de carreira. Parcerias com poetas, escritores, compositores e músicos do Brasil e de Cabo Verde (país que o músico mantém um intercâmbio permanente). A ideia de residir em Belém veio por questões familiares.  “Minha companheira é belenense e decidimos que este ano, o Pará seria a nossa base e os planos se estenderão a 2018”, diz o músico.

Desde que se estabeleceu na capital paraense, o músico vem fazendo conexões, uma delas com Beá Santos, musicista paraense que o acompanha nos teclados e sintetizadores. Juntos já fizeram várias apresentações, numa turnê em outubro por algumas cidades brasileiras. Nas apresentações, a instrumentista também mostra seu trabalho autoral.

“Eu e o meu trabalho musical fomos e temos sido recebidos com muito carinho e respeito. Já conhecia algumas pessoas ligadas às artes, tenho ampliando esse território, construído parcerias e criado com muito esmero um tecido que vem me possibilitando atuar no estado do Pará, em outros estados do Brasil e outros Países”, diz Naldinho Freire.

Com Beá Santos, no Teatro Glauce Rocha da UFF em Niterói
Na discografia do artista está o LP Lapidar (1995) e o CD Viandante, em Alagoas (AL), lançado em 2005, através do projeto Misa Acústico. No CD Raízes, integrando a coleção Memória Musical do Sesc Alagoas (AL), em 2006, publicou pesquisa na área de música sobre tradição oral do Nordeste.

Naldinho também participa do CD Sound of Alagoas, lançado em Berlim (GER), na POPKOMM, e realizou turnê com o CD Raízes, na África, França, Portugal e Rotterdam (de 2008 a 2010). Realizou concertos na cidade de Praia e São Domingos, em Cabo Verde.

No campo das políticas públicas, o artista traz conhecimentos sobre as realidades e demandas culturais do Nordeste e Norte. Entre 2011 e 2016, Naldinho foi representante da Fundação Nacional de Artes – Funarte nestas duas regiões. Em agosto deste ano, o músico participou do Territórios da Arte, projeto trazido a Belém pela Funarte e UFF, no qual o blog também participou. Nos reencontramos em Niterói para a etapa final do mapeamento, no Territórios da Arte - Interculturalidades, onde tive a oportunidade de vê-lo em ação, já com Beá Santos. 

Foto: Elcimar Neves
Holofote Virtual: Como você analisa o ano de 2017 do ponto de vista cultural, dentro do atual contexto político? 

Naldinho Freire: 2017 foi ano em que percebemos com mais firmeza que as políticas públicas para área cultural no Brasil não é prioridade para o grupo que forçadamente está desgovernando o Brasil. Pois, com a extinção do Ministério da Cultura - MinC, e após sua recriação a partir da mobilização dos artistas, agentes culturais, políticos contrários à proposta, gestores e pessoas ligadas aos segmentos culturais, o MinC segue sem musculatura, vive desidratado, sem o diálogo com os que atuam nas áreas da cultura em nosso País. 

Diálogo que pelo qual lutamos muito e exercitamos na gestão do Ministro Gilberto Gil, e que vínhamos mesmo com dificuldades tentando manter nas outras gestões do MinC.  Em 2017 mesmo que algumas ações pontuais tenham acontecido através do MinC, as mesmas não tiveram lastro e nem perspectiva de construção coletiva. Temos servidores efetivos no Sistema MinC com grande potencial de conhecimento e envolvimento com a missão do Ministério, mas infelizmente sem investimento em ações transformadoras, esse recurso humano não é valorizado, e é perceptível o desestímulo de alguns servidores.  

Holofote Virtual: O que você citaria como exemplo de resistência diante desse quadro?

Naldinho Freire: Cito a tentativa grandiosa de sobrevivência dos que fazem a Funarte, o IPHAN, outros institutos, fundações, os que trabalham em escritórios regionais do sistema MinC que ainda não foram extintos, e que diariamente saem de suas casas, e se deparam com as consequências desse desgoverno. 

Portanto, diante desse contexto, os artistas, produtores culturais, agentes culturais, gestores e coletivos que atuam na área cultural, buscaram durante o ano de 2017 ferramentas de resistência, realizaram seus projetos independentes, com recurso financeiro mínimo, extraindo frutos das profundezas dos seus universos culturais, numa constante luta contra as intempéries geradas por essa descontinuidade governamental.

Holofote Virtual: Neste momento, como você tem trabalhado sua carreira?

Naldinho Freire: Também sou um resistente e nesse aspecto externei o trabalho musical que iniciei sua construção no ano de 2016, estreei no Recife/PE, em janeiro de 2017 o show “Sem chumbo nos Pés”, circulei com ele pela Ilha de Santiago - Cabo Verde/ África, por cidades do Sudeste, Norte e Nordeste do Brasil, e o mantenho ainda em processo de construção, a cada apresentação, estudando as possibilidades, percebendo como o público reage a cada canção apresentada, retirando ou acrescentando o que se faz necessário, e paralelamente sem pressa registrando as canções através de gravações em estúdio. 

Essa vivência mostrou-me vários caminhos, trouxe-me vários parceiros e amigos que contribuíram muito com essa construção. Reafirmou em mim o poder de voos infinitos que temos a partir do que idealizamos e buscamos praticar.

Holofote Virtual: Que projetos e ações você acredita que tem feito a diferença neste cenário e quais foram tuas principais conquistas e aprendizados?

Naldinho Freire: Os projetos que incluem o intercâmbio cultural. Entre minhas conquistas está a construção do trabalho “Sem chumbo nos Pés”, com ele permanece o aprendizado que é constante: a percepção do outro, de seus universos, e a nossa posição nesses universos, a forma de agir, interagir e dialogar com as diferenças e os diferentes.

Holofote Virtual: O que esperar para a cultura em 2018?   

Naldinho Freire: Percebo que 2018 não deve ser um ano de espera, penso que deveremos potencializar o uso das nossas ferramentas de resistência. Será um ano que teremos eleições em vários níveis e o nosso trabalho deverá multiplicar-se, para que o voto que é uma das nossas armas possa de fato contribuir com a transformação da realidade política que vivenciamos.

A cultura, seus agentes e suas ações diárias serão de fundamental importância nesse processo. Pessoalmente, darei continuidade ao trabalho musical “sem chumbo nos pés” e continuarei a trabalhar com ações que gerem o intercâmbio cultural.

Ernani Chaves: arte, resistência e cultura em 2017

2017 foi um ano polêmico e esfumaçado. Cada um enxergou o mundo como lhe melhor coube. As pessoas discutiram e expuseram mais o que pensam, se dividiram em cores e deixaram cair a máscara (?). E também foi um ano de resistência da arte à censura e à intolerância. As questões do âmbito político e econômico causaram reflexos em todas as áreas e, na cultura, deflagrou discussões que geraram embates em todo o país.

Foram diversos os casos ocorridos e que deram um alerta. A intolerância está no ar. Diante do preconceito e da realidade política do país, o que já vinha esquentando os ânimos, explodiu no segundo semestre, quando a exposição Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira, em cartaz no Santander Cultural de Porto Alegre, foi cancelada, acusada de zoofilia, pedofilia e blasfêmia. O fato gerou discussões acaloradas no país. Artistas se uniram para combater as limitações impostas às manifestações culturais.

Não só a arte e a cultura, mas dentro dessa realidade econômica e social, tudo que envolve os direitos de cidadania ficou ameaçado em 2017. Para analisar o atual contexto à luz da arte, o blog convidou o Doutor em Filosofia, Ernani Chaves, para um bate papo.

Na entrevista a seguir, o professor comenta o caso Queermuseu, analisa o meio cultural, cita alguns dos projetos e ações que observou neste ano em Belém do Pará e fala sobre políticas públicas para a cultura, que devem oferecer e ser acessadas para fomentar uma nova demanda de produção existente hoje no país. Para ele, as  iniciativas independentes e a resistência cultural devem se manter no cenário e se fortalecer em 2018.

Professor da Universidade Federal do Pará, Ernani realizou estágios de pesquisa no exterior na Alemanha e na França. Possui pós-doutorados na Universidade Técnica de Berlim (1998) e na Universidade de Weimar (2003). Foi pesquisador Associado na Universidade Técnica de Berlim (janeiro e fevereiro de 2013), pesquisador sênior na École Normale Superieure de Paris, de março a junho de 2015.

Autor de livros e vários artigos nacionais e internacionais, publicou recentemente, pela Editora Autêntica, uma tradução de textos de Freud sobre Estética. Entre algumas de suas ações na cidade, registramos no blog o Ciclo "Afetos Obscuros", e seus debates realizados no Café Filosófico da Casa do Fauno.

Holofote Virtual: De modo geral, 2017 foi um ano muito complicado para a área cultural? Por que?

Ernani Chaves: Por vários motivos. Em geral, a área cultural depende bastante dos incentivos e patrocínios e de uma ação por parte do Estado. Num momento de crise econômica, é a primeira a ser considerada supérflua e quase desnecessária. Além disso, a cultura, como sempre, expressa e expõe as contradições, os embates, os confrontos, e diante da onda conservadora e reacionária que nos assola, é contra ela que os ataques se dirigem, antes de tudo, em especial por meio de formas de censura. 

É um movimento paradoxal: do ponto de vista econômico, o âmbito da cultura aparece como desnecessário e quase inútil, porque gera pouco lucro e emprego; mas, de outro ponto de vista, a cultura é considerada como uma força prodigiosa, dotada de um poder de influencia enorme e que, portanto, precisa ser podada de seu aspecto crítico. Se pensarmos de uma maneira mais sóbria e menos exaltada, o balanço não deixa de ter um lado absolutamente positivo: a carência de recursos econômicos, não mata o espírito crítico, pelo contrário, ela instiga e provoca a criatividade!   

Holofote Virtual: Em 2017, vimos muitas coisas, entre elas, uma exposição de arte ser chamada de subversiva, mas ao mesmo tempo temas como a violência contra a mulher, os direitos e a questão de gênero, a arte como expressão e criação também estiveram em evidência, você concorda? 

Ernani Chaves: Como frisei acima, creio que todas as polêmicas e celeumas, que atingiram grandes nomes como Caetano Veloso, por exemplo, deixam uma grande lição: a de que as expressões artísticas são uma componente inalienável da ação humana, da vida humana e que possuem uma força prodigiosa. 

Que a arte tenha se ocupado desses temas, só mostra que ela continua a ser o que sempre foi e será: um lugar no qual podemos expressar o mundo em que vivemos, de uma forma crítica, que a arte tem um componente ético e político, que a torna imprescindível e necessária para que possamos pensar e repensar as nossas ações. 

Ernani Chaves 
Holofote Virtual: Em Belém, o que houve, o que que há?

Ernani Chaves: Eu não sou um frequentador habitual da cena cultural, artística de Belém. Virei um senhor de idade, um pouco preguiçoso, que adora ficar em casa, assistindo velhos filmes. Mas, é claro que procuro acompanhar os movimentos. Creio que existem focos e movimentos importantes, que acontecem no teatro, na fotografia e, principalmente, na música. 

Embora, nesse último caso, a “coisa” é mais complexa, porque envolve um componente específico que é um desejo de afirmação identitária, que considero muito perigoso, ou seja, de que por meio de certas expressões musicais, a alma paraense estaria à mostra. 

O resultado disso me parece muito problemático, uma vez que a música é a expressão cultural e artística mais facilmente capturável pelas fórmulas estandartizadas do sucesso. Daí a repetição infinita, que acontece nesse campo.  Justamente por estar vinculada a formas de “expressão identitária”, que uma reportagem recente de Domink Giusti para um jornal da cidade provoca reações tão intensas. 

Holofote Virtual: O que fica de reflexão e aprendizado da discussão sobre o fechamento da exposição Queermuseu? 

Ernani Chaves: Duas coisas, no mínimo: em primeiro lugar, que precisamos ficar atentos a esses movimentos de caráter declaradamente conservador, autoritário e com alguns traços do fascismo, porque eles são capazes – e a história não nos deixa mentir -, com muita facilidade, de mobilizar as pessoas, ou seja, não podemos desconsiderar a força desses movimentos, que ganham muito espaço numa sociedade tradicional autoritária como a nossa, e as próximas eleições são o instrumento mais eficiente, no momento, para esse combate; em segundo lugar, que, repito, a arte continua mostrando sua potencia criativa e transformadora.

No Café Filosófico, Casa do Fauno
Holofote Virtual: Em meio ao caos de 2017, o meio cultural reagiu, na sua opinião, como?

Ernani Chaves: No começo, timidamente, mas depois com muita força. Quando falo em “meio cultural”, falo também de nós, expectadores, “consumidores”. No campo acadêmico, por exemplo, reagimos de imediato às manifestações contra a presença de Judith Buttler no Brasil. O show de desagravo ao Movimento sem Terra e a Caetano Veloso há pouco em São Paulo, foi excelente, com milhares de pessoas, as mídias sociais foram um campo de batalha constante, no qual a resistência também se fez. 

As censuras a peças teatrais e os ataques, de uma maneira geral, desferidos no campo da cultura ganharam repercussão internacional, o que nos enche de vergonha, é claro. Voltamos a ser um país de bárbaros! Dependendo da situação, do que estava em jogo, reagimos pouco ou muito, isolados ou em conjunto. Eu não descarto, de forma nenhuma, qualquer dessas manifestações de resistência, acho-as importantes e necessárias e vejo, com um certo otimismo, a continuidade delas no próximo ano, cujo panorama não é nada animador.

Holofote Virtual: Iniciativas independentes de artistas, produtores, sociedade civil organizada e comunidade acadêmica fizeram a diferença em vários momentos ao longo do ano. Destaque algumas iniciativas, ações e projetos, se houver. 

Ernani Chaves: Perdoem-me se não lembrar de todos: o projeto “Circular”, as caminhadas pelo centro histórico organizadas por Michel Pinho (Historiador) e por Gorette Tavares (Geógrafa), os Cafés Filosóficos na “Casa do Fauno” (rs, auto-elogio), a popularização (no melhor sentido da palavra), do trabalho de um fotógrafo como Luiz Braga, cuja última exposição foi acompanhada de debates e visitas guiadas com estudantes que nunca tinham ido a um museu, pelas ações no campo do cinema, que ocorrem na Casa das Artes e nas programações alternativas do “Olympia” e do “Líbero Luxardo”, por formas de organização artística como o “Atelier do Porto”....

Holofote Virtual: Refletindo sobre isso tudo, na sua opinião, qual é a direção a ser tomada em 2018? Que rumos você acredita que terá a política cultural no país?

Ernani Chaves: O rumo não parecer ser dos melhores, mas acredito que há uma forte resistência e, melhor, que não está organizada da forma tradicional. Os movimentos de resistência no campo da cultura não podem, no andar da carruagem do mundo atual, agirem tomando como modelo os sindicatos ou os partidos políticos. Infelizmente, em Belém, afora a manutenção à fórceps de instituições como a Casa da Linguagem e a Casa das Artes, pouco se vê uma presença do Estado, no bom sentido da palavra, que seja interessante e criativa. Mas, o mais importante em 2018 é não jogar fora o voto!

Holofote Virtual: As iniciativas independentes devem se manter e fortalecer? Ou serão vencidas e engolidas pelo sistema?

Ernani Chaves: De forma alguma, se há um foco de resistência que se mantém e precisa ser mantido é esse, o das iniciativas independentes, embora essa “independência” deva ser colocada entre aspas. Isso porque, essas iniciativas são as que mais necessitam de apoio. Em época recente, quando havia muitos Editais, as iniciativas independentes, justamente por necessitarem de recursos, corriam sérios riscos de sucumbir a algumas fórmulas que presidiam os Editais, para serem contempladas. Mas, isso faz parte do jogo laborioso entre as forças da cultura e as instituições que nós mesmos construímos. 

28.12.17

Uma retrospectiva do que rolou pelo blog em 2017

Um passeio pelas postagens que se destacaram por aqui. As reportagens sobre projetos, shows, entrevistas e ações acabam revelando um pouco de como a produção cultural independente atravessou o ano de 2017 em Belém. A ativação de cultura e ações artísticas ficou em boa parte nas mãos dos coletivos artísticos e fazedores de cultura. A área da música profissionalizada ganhou expoentes, e em políticas públicas a principal ferramenta continua sendo a lei de incentivo. De maneira independente, acessando ou não a política pública disponível, produtores e artistas arregaçaram as mangas e realizaram. É esse o holofote que  a gente vai jogar aqui na retrospectiva do blog. 

Começamos o rolê pelo Casarão do Boneco, que entre oficinas e campanhas próprias, manteve também programação mensal contínua como o “Amostra Aí” , realizado sempre no último sábado de cada mês, promovendo na entrada o Pague Quanto Puder, oferecendo brechós, lojinha e comidinhas que também arrecadaram recursos para a manutenção do espaço.

Os Palhaços Trovadores ofereceram programação continua ao longo do ano, com espetáculos e também oficinas em sua sede a Casa do Palhaço. Destaco ainda as ações do BEC Bloco do Coletivo Casarão Viramundo, que segue agora como ação independente, trabalhando arte e saúde mental com moradores de rua. Além desses, outros espaços coletivos se movimentaram este ano, sendo que grande parte deles estão situados no Centro Histórico de Belém, incentivados por diversos projetos voltados a revalorização dos bairros históricos da Cidade Velha, Campina e Reduto.  

O atelier Multifário na Casa Velha 226
Um deles é a Casa Velha, moradia de produtores culturais que abriu as portas e revolucionou um pedaço importante da Cidade Velha, na rua Gurupá e imediações. 

Foram inúmeras atividades, trazendo como foco as iniciativas culturais na periferia de Belém e iniciativas para lá de independentes, como a da banda Les Rita Pavone que fez vários bailes para arrecadar recursos e lançar o primeiro CD prometido para 2018. No início do ano, a programação apresentou o projeto "Mestres Urbanos da Vila de Icoaraci", idealizado por Hugo Caetano, banjista e vocalista do grupo Cobra Venenosa, uma parceria com a SubVersiva Produção Cultural Independente, que comemorou um ano de iniciativas de difusão da cultura alternativa, no dia do aniversário de Belém.

Independentes coletivos e outras iniciativas

Bar do Rubão, no Circular 
(Foto: Irene Almeida)
O Circular Campina Cidade Velha, via Lei Rouanet, parcerias e venda de produtos próprios alcançou sua edição número 20 e comemorou os feitos.  Em quatro anos, o projeto conseguiu se projetar na cidade com um calendário fixo de cinco circulações ao ano, com produção de revista e de um documentário lançado em novembro, o “Experiência Circular - Encontros e Afetos no Centro Histórico de Belém” (Macieira Filmes - Dir. Mário Costa).  Para 2018, o projeto já está inscrito novamente em Leis de Incentivos à Cultura e Editais.

Cito como conquista de 2017, o relançamento do livro “Ponte do Galo”, de Dalcídio Jurandir, o sétimo romance dos dez que formam o chamado Ciclo do Extremo-Norte, publicado em 1971 pela Editora Martins/MEC. Esgotado em livrarias, o romance foi reeditado pela Pará.grafo, uma editora bragantina, por meio de uma campanha de financiamento coletivo - Catarse. Atualmente, uma nova campanha está em execução, para lançamento de mais duas obras do escritor.

Tá na retrospectiva também o ator, diretor de cinema e escritor Adriano Barroso, que lançou o livro sobre a trajetória do grupo GRUTA, “Ato - Paixão Segundo o Gruta” , lançamento casadinho com a estreia do espetáculo mais novo do grupo “A Casa do Rio”, no Teatro Waldemar Henrique.  O livro traz contribuições importantes para a história do teatro paraense, uma vez que acaba contextualizando décadas de um cenário teatral, por meio das histórias incríveis vividas pela trupe familiar, formada ainda por Monalisa da Paz, Henrique da Paz e Waléria Costa. Em A Casa do Rio, além das duas atrizes, o espetáculo contou também com a atriz Astrea Lucena.

Na Casa do Artista, novembro
No finalzinho do ano, também, grato prazer foi conhecer o espaço Na Casa do Artista, em Icoaraci, abrindo uma programação cultural para o trimestre novembro, dezembro e janeiro de 2018. Já teve exposições, shows e saraus, lançamento de livro. Em janeiro será realizado um encontro de contação de histórias, entre outras coisas, confere na matéria publicada aqui.

Antes, em abril, também foi um acontecimento o lançamento do livro biográfico de Frei Betto, com presença dele e dos autores, Américo Freire e Evanize Sydown. A iniciativa, de Milton Kanashiro, teve apoio da OAB, que cedeu o espaço, da Toró Gastronomia que serviu um delicioso coquetel, do Movimento Ocupa República e do Holofote Virtual que com muita honra apoiou na divulgação do evento junto à imprensa.

Para elaboração do livro 200 pessoas foram entrevistadas, além do biografado. Arquivos preciosos com informações das atividades Dominicanas, ordem religiosa de Frei Betto, foram acessados. Os autores viajaram por vários lugares do Brasil e foram a dois países onde Frei Betto tinha trabalho intenso, Nicarágua e Cuba. 

Funarte e UFF - Territórios da Arte em Belém

Auda Piani, de Icoaraci e Mestre Manoel, 
do carimbó de Marapanim - Territórios da Arte.
Em agosto o projeto Territórios da Arte, da Universidade Federal Fluminense, a UFF (RJ), em parceria com a Funarte, aportou por aqui a fim de mapear experiências de coletivos de cultura, artistas e produtores culturais. Foram três dias de discussão no Instituto de Artes da UFPA , na Praça da República e Icoaraci. 

Entre depoimentos e uma plateia fervorosa, polêmicas também tornaram espaço, resultando ao final em momentos de aprendizado. Em 2018 devemos ter acesso aos resultados. 

O Territórios da Arte encerrou oficialmente em outubro, com ações no Rio de Janeiro, no qual estive participando pelo blog e representando o Circular Campina Cidade Velha. No evento, que reuniu representantes de coletivos de capitais das cinco regiões do país, ficou claro que a onda dos coletivos e espaços compartilhados é um “fenômeno” que está se espalhando em todo o país. 

A ideia é que a partir desse mapeamento, surjam políticas públicas específicas para esta demanda que só vem se intensificando e somando com o poder público para ações de cidade e não apenas de galerias, teatros e cinemas o que obviamente também não pode faltar.

Patrocínios, editais e leis de incentivo

Baile do Cupijó
Á exemplo, entre os projetos realizados com patrocínios por meio de Lei de Incentivo. Em junho acompanhei uma parte dos ensaios para o show de gravação do DVD Baile do Cupijó. Gravado ao vivo no Teatro Margarida Schivasappa, o trabalho de Jorane Castro faz um resgate da obra de seu tio avô, o lendário músico de Cametá Mestre Cupijó, tão importante quanto Mestre Vieira ou Mestre Verequete. Na ocasião conversei claro com a diretora, mas também com dois músicos que tocaram com Cupijó. O projeto foi realizado pelo Programa Petrobras Cultural.

O Sonido, festival de música instrumental realizado pela Produtora Se Rasgum é outro exemplo. Teve apresentação e patrocínio do Ministério da Cultura e Banpará. Ocupou pelo segundo ano, o Mercado de Carne de Belém, um espaço de patrimônio histórico, ressignificado com shows de altíssima qualidade. Programação gratuita, nos três dias, muito fôlego. Entra na minha lista de retrospectiva como uma das melhores ações da música em Belém este ano. 

Festival Se Rasgum com patrocínio do edital da Oi (Semear) e outros apoios e parcerias, também se destacou promovendo uma grande programação que se espalhou pela cidade, trouxe rodada de negócios com representantes ou organizadores de festivais de outras regiões, além de shows no Parque dos Igarapés, Margarida Schivasappa e na Estação das Docas. Ainda rolaram noites muscais no Ziggy Hostel Club, espaço que inaugurou este ano trazendo novas contribuições para a cena.

Minni Paulo e Rafael Lima (na frente)
Tivemos ótimos momentos também com o JacoFest, festival de música instrumental realizado pelo músico Rafael Lima, nos dias 9 e 10 de dezembro. Fui apenas à segunda noite e foi muito bom. Pena termos ficado sem o Baiacool Jazz Festival, vamos aguardar que o produtor e músico contrabaixista Minni Paulo Medeiros ainda consiga realiza-lo em 2018. O músico brilhou este ano com seu grupo Quarteto Equilibrium.

A realização do Festival Amazonia  Mapping, contou com o patrocínio da Vivo, via Lei de Incentivo à Cultura SEMEAR, e do Boulevard Shopping, via Lei de Incentivo à Cultura Tó Teixeira. Em novembro, ocupou a Praça Felipe Patroni, que funcionou muito para esse tipo de ocupação. Para a ocupação artística os moradores de rua foram retirados da praça e conduzidos pela produção do evento a um abrigo. 

Shows, clipes e carreiras independentes

Aila, no clipe Lesbigay  (Fofo: Julia Rodrigues)
Na área musical, a cantora Aila também ganhou maior destaque no cenário nacional, trabalhando o álbum “Em Cada Verso Um Contra-Ataque”, um dos melhores discos de 2016, fez shows em São Paulo, onde está radicada, e outras cidades do país. Trazendo a liberdade de expressão no contexto político e muita atitude, Aíla lançou o clipe Lesbigay, gravado na maior ocupação artística da América Latina, em São Paulo e que lhe deu a indicação ao Women's Music Event Awards, na categoria videoclipe, com “Lesbigay”. 

O prêmio é o primeiro dedicado exclusivamente às mulheres na história da música brasileira.  Mais recentemente, a cantora também lançou o clipe de "Tijolo". Do mesmo álbum que Lesbigay, a música levanta temas como corrupção, da manipulação da mídia, destruição das florestas e relações de poder.  

Falando em clipe, Antonio Oliveira surpreendeu em seu primeiro, realizado e dirigido por Fernanda Gaia Brito. Viva o Moço! E viva mesmo. O trabalho aborda a liberdade, sexualidade, relações de gênero e transgênero, temas presentes nas universidades, rodas de conversa e na própria expressão estética das relações sociais.

Entre o Pará e o mundo, o Strobo se afirmou no eixo sul e sudeste, viajou ao mercado internacional e trouxe Marina Lima para um show com o duo, em Belém. Momento marcante para fãs da cantora que andou firmando parcerias com Leo Chermont e Arthur Kunz. Leo Chermont conversou com o blog e falou do estúdio Floresta Sonora, que anda gravando muita gente da nova cena musical de Belém, e também de uma possível carreira solo em 2018. 

Tá no blog

Capa do disco Belém Incidental, de Henry Burnett
Henry Burnett bateu um papo com o blog sobre “Belém Incidental, o mais novo CD lançado no início do ano. Também deu entrevista aqui Toninho Horta, um papo muito bacana sobre a carreira dele e seus novos projetos. Ele veio a Belém fazer shows com Delcley Machado, dentro de um projeto em que sempre dois artistas dividem o palco, um com projeção mais nacional, caso do mineiro que fez parte do célebre movimento musical de Minas Gerais, o Clube da Esquina.

Dona Onete lançou o CD Banzeiro, gravou DVD com casa lotada no Margarida Schivasappa, e viu sua carreira ganhar o nível internacional. O blog foi conferir e quase, quase fica de fora. A cantora, descoberta nos anos 1990 pelo Coletivo Rádio Cipó, chegou ao auge da carreira. Foi o ano do carimbó No Meio do Pitiú, que virou Hit. 

Da nova geração A Feira Equatorial chegou com vontade de realizar um trabalho potente e autoral. Lançou o EP Paná  com show no Teatro Margarida Schivasappa, sendo grata surpresa. Estivemos lá e reportamos aqui. Vale citar também o CD A Bença da Lauvaite Penoso, que retoma músicas de mestres da tradição do carimbó de Icoaraci. Bati um papo com um dos integrantes.

Mestre Vieira se recupera e faz shows no Rio e Belém

Mestre Vieira, no show "Acordes do Círio", em outubro
Foto: Débora Flor
Em outubro uma notícia boa. Mestre Vieira, considerado o criador da guitarrada paraense, há um ano fora dos palcos, por motivos de tratamento de saúde, volta à cena. Grava programas de TV e faz shows no Rio de Janeiro, Niterói e depois Belém. Foi emocionando o público por onde passou. No Rio de Janeiro chegou a gravar um clipe com o grupo Noites do Norte, formado por jovens músicos cariocas que pesquisam a sonoridade nortista. 

Em Belém, ainda em outubro, participou do show "Acordes do Círio". No dia 29 do mesmo mês, completou 83 anos com grande festa em sua cidade, Barcarena. No momento, porém, já em meados de dezembro, nosso guitarreiro deu uma parada e segue aos cuidados da família. Enquanto isso, a cultura da guitarrada está nas discussões  de redes sociais, em festas e em blogs especializados, como o Lambada das Quebradas, de Bruno Rabelo e André Macleuri, que já integraram  a banda de Vieira. 

Félix Robatto, que comanda a Lambateria  completou um ano de festas no Fiteiro, e que foi também o mentor da extinta Quintarrada, no Templários,  fundou recentemente com outros músicos,  o Clube da Guitarrada. Os sócios se reúnem sempre no primeiro domingo de cada mês, no Espaço Cultural Apoena, que aliás tem sido um dos cenários de diversas outras iniciativas musicais na cidade. 

Espaços Institucionais

A cultura do Boi de Máscaras, no Sesc Boulevard
Foto: Marcelo Lelis
Ainda dentro da agenda cultural o Teatro do SESI, que se abre como mais uma sala de espetáculos em Belém. Foi reinaugurado em outubro com show de Leila Pinheiro e a Orquestra Vale Música, com participação de Sebastião Tapajós.  Entre outros shows do mês de inauguração, não posso deixar de citar o Acordes do Círio , que reuniu verdadeiras joias da música paraense, brasileira e internacional. Sebastião Tapajós, Mestre Vieira, Mestre Solando e Mestre Laurentino. Eles nos deram alguns dos momentos mais emocionantes já em reta final de ano.

Incentivando e fomentando a cena cultural, o Sesc Boulevard manteve programações musicais, mostra de cinema, oficinas, contações de histórias, exposições e debates filosóficos. Recentemente realizou o Mestras da Cultura Popular e abriu um debate em torno do patrimônio no centro histórico, enfatizando o bairro da Campina.

Um dos momentos inesquecíveis também foi o show de Vitor Ramil dentro da programação do Festival Internacional de Música do Pará da Fundação Carlos Gomes. Só ele e o violão além de uma plateia afinada e hipnotizada (risos).  

Os espaços da Fundação de Cultura do Pará - Casa das Artes e Curro Velho, Teatro Margarida Schivasappa e Waldemar Henrique receberam lançamentos de EPs e CDs, shows e espetáculos de música e teatrais, realizados, em sua maioria, por meio dos micros editais SEIVA - Programa de Incentivo à Arte e à Cultura. A cineasta Zienhe Castro lançou um curta metragem inspirado na fotonovela "Josefina", da fotógrafa Walda Marques, acessando o recurso que é direto. Dois deles com inscrições abertas: Bolsa de Experimentação Artística (atualmente aberto) e Pauta Livre (aberto). O Produção e Difusão abre no início de 2018. 

Fotografia

Fotografia de Elza Lima
A fotografia paraense mais uma vez ganhou destaque em vários momentos em 2017. Para citar um deles, vai o lançamento dos livros álbuns dos fotógrafos paraenses Elza Lima e Guy Veloso. Foram lançados no 7º Festival da Fotografia de Tiradentes, em Minas Gerais. O blog teve o prazer de receber as obras, que trazem as histórias dos fotógrafos contadas por eles mesmos nos volumes 5 e 6 da Coleção IPSIS de Fotografia Brasileira. Organizados pelo jornalista e curador Eder Chiodetto, as obras trazem uma gama volumosa e importante de fotos que norteiam as carreiras de ambos.

Não posso deixar de citar também o lançamento de Bar do Parque, livro de fotografias de Bruno Pellerin, fotógrafo francês radicado em Belém e apaixonado pelo cenário musical dessa cidade que traz inúmeras referencias à França em sua arquitetura. O Bar do Parque é apenas uma delas e era um sonho antigo a publicação do livro. Saiu com recursos próprios e apoio da Aliança Francesa. O lançamento, na Casa do Fauno reuniu amigos, fotógrafos, além de alguns convidados especiais de Bruno, os garçons do Bar do Parque. O fotógrafo dedicou o livro a eles também.

O lançamento do catálogo de "Retumbante Natureza Humanizada", de Luiz Braga, em junho, selou uma programação comemorativa da carreira do fotografo, iniciada em outubro de 2016. E também em destaque as programações da Associação Fotoativa, que trouxe debates e propôs trocas como meio de resistência no meio da fotografia.

Fim de rota

Jardim Percussivo no Sesi (Foto: Cláudio Ferreira)
Para encerrar esse passeio, vou registrar aqui a matéria sobre o show de lançamento do CD Jardim Percussivo, em dezembro, no Teatro do SESI. O trabalho traz obra de Márcio Jardim, percussionista do Trio Manari, gravado a partir de um laboratório musical com jovens estudantes de música. O show foi uma das parcerias do blog firmadas este ano com a produção cultural da cidade.

Não tem postagem no blog, mas vou incluir nesta retrospectiva que o blog Holofote Virtual recebeu pela segunda vez o Prêmio Destaque de Imprensa na categoria mídia digital do Banco da Amazônia, desta vez em reconhecimento às reportagens de cultura e turismo sustentável em Belém do Pará, uma grata surpresa e sempre um incentivo profissional. Em 2018, o Holofote Virtual vai completar 10 anos de atuação, vamos ver se  a gente consegue comemorar!  

Espero que tenha sido um passeio prazeroso. É claro que nem tudo foi citado e que o blog nem de longe cobriu ou divulgou tudo que foi produzido, realizado ou se tornou notícia no meio cultural em Belém, mas até amanhã novas postagens de balanço de final do ano irão ao ar, e na próxima trago um bate papo com o professor de filosofia, Ernani Chaves sobre o cenário cultural brasileiro em 2017. Fico por aqui, leitores e amigos. Um ótimo ano novo para todos vocês.

Cronologia

Para quem gosta da ordem cronológica, disponibilizo links que estão citados ao longo dessa retrospectiva,  por ordem de mês de postagem:

Clique na manchete para acessar a reportagem completa
Outros links em destaques


Há nova campanha para reeditar Dalcídio Jurandir

A Pará.grafo Editora lançou novo projeto de financiamento coletivo pa- ra reeditar os livros “Três Casas e um Rio” e “Os Habitantes”, do ro- mancista paraense Dalcídio Jurandir, sem novas edições há décadas. A campanha fica no ar até o dia 31 de janeiro de 2018, no site Catarse. O projeto anterior foi um sucesso e ajudou a reeditar o livro “Ponte do Galo”, após 46 anos da primeira edição. 

É o que a Pará.grafo Editora quer repetir para recolocar nas estantes brasileiras as demais obras esgotadas do autor. Desta vez, serão edições com apurado acabamento gráfico, ilustrações da artista plástica e escritora Paloma Franca Amorim, e versão em e-book.

Os apoiadores podem receber como recompensas exemplares numerados, miniaturas do autor, pôsteres com as ilustrações do livro (reproduções ou mesmo originais) entre outras opções. Também há a opção de livrarias e empresas participarem dessa iniciativa, com condições especiais.

Três Casas e um Rio foi lançado em 1958, com capa de Cândido Portinari, e teve outras duas edições, sendo a última em 1994, tornando-se objeto de luxo nos sebos do país. É o terceiro livro do chamado Ciclo do Extremo-Norte, série romanesca de dez livros de Dalcídio Jurandir, iniciada com “Chove nos Campos de Cachoeira”. Esta quarta edição será lançada em comemoração aos 60 anos da primeira. Os Habitantes, de 1976, nunca foi reeditado, tornando-se um livro raro. Esta será sua segunda edição, após mais de 40 anos. É o oitavo livro do Ciclo, logo após o “Ponte do Galo”.

Nos livros do Ciclo, através da saga do menino Alfredo, o autor,descreve o horizonte amazônico, a partir do contexto humano e geográfico com a riqueza de suas imagens, suas expressões linguísticas típicas, a cultura e, até as concepções sociopolíticas. Retrata com plasticidade a existência humilde de pequenos proprietários de terra, barqueiros, ribeirinhos, pescadores, vaqueiros, enfim, o que Dalcídio chamava de sua "criaturada do Marajó". 

O autor

Dalcídio Jurandir (1909-1979) nasceu em Ponta de Pedras, Ilha do Marajó, e faleceu no Rio de Janeiro. Escreveu onze romances, dos quais dez formam o chamado Ciclo do Extremo-Norte. Recebeu com eles o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1972. Teve edições em Portugal e na Rússia. Co- laborou como jornalista e cronista em diversos jornais e revistas regionais e nacionais. É considerado por muitos o maior romancista da Amazônia e um dos principais autores brasileiros do século XX.

Compõem o Ciclo:

Chove nos Campos de Cachoeira (1941)
Marajó (1947)
Três Casas e um Rio (1958)
Belém do Grão Pará (1960)
Passagem dos Inocentes (1963)
Primeira Manhã (1967)
Ponte do Galo (1971)
Os Habitantes (1976)
Chão dos Lobos (1976)
Ribanceira (1978)

Para acessar a campanha: